A paciência é um virtude e não há melhor lugar para
aperfeicoá-la do que Lisboa. Quem mora fora da cidade sabe como são
vitais aqueles minutos que saímos mais cedo de casa, caso contrário
apanhamos um trânsito infernal para entrar em Lisboa. Mais do que
infernal, eu diria anedótico, pois há dias em que seria possível
fazer uma corrida entre um carro e um caracol que este chegaria à
meta primeiro e ainda fumaria um cigarro enquanto esperava pelo
carro.
Quando trabalhava em Lisboa, costumava ir de transportes públicos,
neste caso o exercício de paciência é outro, designadamente, andar
como sardinha em lata. Por vezes, vamos tão juntinhos que dá para
adivinhar a marca do aftershave do senhor da frente ou saber que a
jovem do lado está chateada com o namorado porque o ouvimos implorar
perdão pelo telefone. E na volta para casa, não nos safamos do
trânsito. Chega a demorar tanto tempo que já apanhei um autocarro
com uma senhora à minha frente que descascou e comeu um saco de
camarões cozidos até chegarmos à Bobadela.
Contudo, quando somos nós ao volante não há muito que possamos
fazer. Já houve alturas em que me apetecia fazer como nos filmes e
abandonar o carro para ir a pé. Oiço música, canto, encanto ou
assusto o vizinho do lado com as minhas figuras; penso nos mistérios
da vida (embora nunca chegue a conclusão nenhuma); como um
lanchinho, porque mulher prevenida vale por duas; por vezes,
trabalho, porque as ideias surgem assim, por entre suspiros, quando
deixo o cérebro respirar; e nunca uso o telemóvel, senhor polícia!
E falando em camarões, Lisboa tem excelentes restaurantes, tão
bons que atraem multidões. Em resultado, esperamos para conseguir
mesa, depois temos de esperar para sermos atendidos e ainda, esperar
até a comida ficar pronta. Então, comem-se os aperitivos e põe-se
a conversa em dia, interpolada por uns brindes à malta. Em breve,
esgotamos os temas mais interessantes e já só mexemos o gelo no
copo com a palhinha. O bom é que quando o prato chega, toda a gente
está com fome e pensa mais é em aconchegar o estômago. Pede-se
mais um jarro de sangria, fala-se sobre como a comida é boa e para
onde vamos a seguir.
Outra situação que me ajuda na mestria da arte da paciência são
as filas da Segurança Social ou do Centro de Emprego. Infelizmente,
tenho-me deparado por diversas vezes com esta situação. Lá em
baixo no Algarve, por norma, se formos a uma cidade menor das
redondezas, conseguimos apanhar menos pessoas na fila da Segurança
Social do que numa cidade maior, como a minha Portimão. Tentei
aplicar aqui o mesmo princípio e ir a Loures ao invés de Lisboa.
Pois, acontece que Loures é uma Portimão e uma Faro juntas,
suspeito. Já tentei chegar meia hora antes da abertura da agência
e, mesmo assim, nunca consigo menos de 50 pessoas à minha frente.
Antes gastava toda a minha bateria no Facebook ou a jogar à
paciência, mas agora já aprendi a contornar a situação. Faço o
mesmo no Centro de Emprego, tiro a senha e vou à minha vida. Até
agora tenho conseguido sempre adiantar outras tarefas, almoçar em
casa e ainda chegar a tempo de ser atendida. O pior é mesmo a espera
pelo emprego. Foi menos longa quando terminei a Licenciatura e tinha
pouca experiência, agora tenho formação e experiência a mais e
sou demasiado velha para estar atrás de um balcão ou servir às
mesas. Este é o maior teste à minha paciência.
Esta semana também vocês, meus queridos leitores, praticaram a
paciência, pois tiveram de esperar um dia a mais pelo meu post.
Espero que tenha valido a pena, porque o lado positivo de treiná-la
é que a paciência não é um fim, mas um caminho, pois como dizem
“The best things in life are worth waiting for ...”
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