Quando vi a notícias sobre a morte dos alunos da
Universidade do Minho, o meu primeiro pensamento foi: “Mas eles não deveriam
estar nas aulas?!”. Já com o caso do Meco parece que os estudantes
universitários fazem tudo, menos estudar. Contudo, a experiência diz-me que
estou a ser injusta, pois a Universidade dá-nos a possibilidade de aprender
algo que não se ensina em sala de aula: social skills – algo que também não é
preciso ir para a Universidade para se aprender.
Dos meus colegas de Curso, os que estão melhor colocados ao
nível de carreira, são precisamente aqueles que mais faltavam e alguns chegaram
mesmo a desistir do Curso. Dos diretores de hotéis que conheci, muitos não
tinham curso superior e os que tinham admitiam (com orgulho) ter sido maus
alunos (não só em termos de notas, como de comportamento). Custa-me defender a
opção deles, pois é um pouco ingrato não sermos reconhecidos pela nossa
capacidade de foco e abnegação. Passei muitas tardes solarengas fechada em casa
a estudar e a ver os meus vizinhos na rua a brincar. Exige uma grande força de
vontade da nossa parte. Mas, na “vida real” quem tem social skills é rei.
Algo que também ajuda a desenvolver social skills em
ambiente de trabalho são os empregos de Verão. Os meus pais nunca quiseram que
eu e a minha irmã trabalhássemos, mas que nos dedicássemos aos estudos. Hoje,
acredito que é bastante benéfico começar a trabalhar desde cedo e até
frequentar a Universidade em regime pós-laboral. Pode-se demorar mais tempo e
ter notas piores, mas as boas notas não dão emprego. Se não acreditam em mim, recorde-se
que o nosso vice-primeiro ministro formou-se com 12 valores, Alberto João
Jardim com 10 valores (e chegou a ser professor universitário), e para não
falar da Licenciatura de José Sócrates, ou de como Miguel Relvas comprou a sua,
digo obteve equivalências.
Os empregos de Verão ajudam-nos não só em termos de social
skills, como a formamos uma noção daquilo que queremos fazer na nossa vida. Quando
comecei a trabalhar, a ambição da maioria dos meus colegas de área era
trabalhar no departamento comercial de um grupo hoteleiro. Eu tive essa
oportunidade e detestei. Senti-me mesmo como peixe fora de água. Faltavam-me as
social skills que são necessárias para trabalhar as relações comerciais com os
clientes. Ainda recorri a Dale Carnegie, mas não me saía de forma natural. Nos
jantares do trade suava em bica e não tocava no meu prato na ânsia de manter
sempre a conversa a fluir. Depois fazia-me confusão a naturalidade com que
algumas colegas minhas elogiavam as pessoas à sua frente e por detrás falavam
mal delas. É que até o Dale Carnegie diz que devemos ser genuínos no afecto
demonstrado.
Ser recepcionista foi algo que tentei evitar porque achava
que não tinha mesmo competência, mas a vulnerabilidade de um turista deslocado
torna o meu afecto genuíno e a relação de empatia que se gera torna o meu desempenho
bem sucedido. Para além de elogios de hóspedes, recebia elogios dos meus
colegas, até mesmo quanto à forma como mantinha o sorriso em situações de
stress – algo que aprendi com um amigo meu que me disse que os hóspedes estão
de férias e nós não temos o direito de fazê-los sentir o peso dos nossos
problemas. Mas também este emprego não encaixou perfeitamente comigo. Eu não
conseguia estabelecer limites. Cheguei a usar do meu tempo pessoal para fazer
favores aos hóspedes como ir comprar um novelo de lã e enviar por correio para
que uma senhora na Irlanda pudesse terminar uma camisola, ou ir ao Hospital do
Algarve de noite deixar o estojo de higiene ao marido hospitalizado, e se não
fosse a minha família, teria emprestado dinheiro a um casal que se esquecera da
carteira no táxi e tivera de cancelar os cartões de crédito. Se nem o hotel ou
o agente de incoming ajudam, porque devo eu preocupar-me.
Adorei ser professora, mais dos adultos do que das crianças
(embora me tenha divertido muito), amei o que pude fazer no departamento de
recursos humanos do hotel X, e estou a descobrir novos talentos no curso que
estou a fazer à noite para além do doutoramento. Brincar com as palavras é o
que eu gosto de fazer. Criar ideias e inspirar as pessoas. Só é pena não poder fazer
o relógio andar para trás ou pelo menos pará-lo por um tempo. A julgar pelos
anúncios de emprego, quem tem mais de 30 é demasiado velho para apostar numa
nova carreira.
Laurinha, a tia vai arranjar-te um emprego de Verão, nem que
eu tenha de criar uma empresa para te contratar!
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