Este fim-de-semana fui assistir a um congresso na
Universidade Nova de Lisboa. Regressada ao auditório após o coffee-break e
enquanto aguardava o início das palestras, escutei inadvertidamente uma
conversa entre alunos da ESHTE que estavam sentados atrás de mim. Pelo que
percebi, um director de um hotel que foi convidado a participar num seminário
nesta Escola terá defendido que os estagiários não só não devem ser remunerados
como deveriam ainda pagar às empresas que os acolhem, pois dão muito trabalho e
despesas. A minha reacção foi: WTF!
Desde que comecei a trabalhar em hotelaria, há sete anos,
que sempre me deparei com uma proporção desajustada entre colaboradores permanentes e estagiários. Num mundo ideal, o senhor director teria razão e
faria sentido as escolas pagarem às empresas para acolherem estagiários, sendo
que haveria uma pessoa designada para integrar e acompanhar o estagiário no seu
departamento, assim como um plano de estágio e um horário adequados à condição
de estudante. No mundo real isso não
acontece e os estagiários substituem colaboradores que estão de férias ou que
foram downsized.
Ora diz o IEFP que o estágio é “o desenvolvimento de uma
experiência prática em contexto de trabalho, que não pode consistir na ocupação
de posto de trabalho”. Há uns anos a esta parte os estágios tornaram-se política
comum de recrutamento das empresas, até ao exagero, propiciado pelas medidas de
estímulo ao emprego do Estado, de se verem anúncios que declaram sem pudor “Procura-se
estagiário”. Os estágios não se procuram, oferecem-se. Nem que seja como parte
da sua política de responsabilidade social, a empresa aceita acolher um aluno
para aprender, supervisionado, o exercício de uma função e não assumir sozinho a
responsabilidade por ela.
Quanto aos custos, no caso dos estágios curriculares as
empresas não têm de atribuir qualquer remuneração pecuniária aos alunos, e no
caso dos estágios profissionais, ainda gozam dos apoios públicos. Nos hotéis, o
custo a que o senhor director se deve referir são simplesmente as refeições na cantina dos
colaboradores (um excelente acordo, diria a Dra.
Isabel Stilwell).
O que mais me admira é que a forma como os estágios estão a
ser encarados pelas empresas não só é moralmente questionável como de eficácia
duvidosa. Os serviços baseiam-se em interacções complexas e únicas entre
cliente e prestador, sobretudo em serviços com elevado contacto pessoal, como
na hotelaria, motivo pelo qual são aspectos fundamentais as políticas de recursos
humanos. Os estágios têm uma rotação intensiva o que afecta a qualidade e
consistência do serviço prestado. Então isto será esperteza saloia ou tiro no
pé?
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