Partilha de experiências e pontos de vista de uma brasileira (Juliana) e uma algarvia (Marisa) em Lisboa.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
O efeito McNamara
Esta Sexta-feira foi um dia diferente. Rumei com os meus colegas da Restart até à Nazaré para assistirmos à produção de uma campanha que tem como protagonistas a Mercedes e Garett McNamara.
Este senhor tornou-se conhecido dos portugueses, e ainda mais no mundo, em 2011, por estabelecer o recorde da maior onda surfada em 24, 77 metros, na Nazaré. No início de 2013, novamente na Nazaré, terá logrado surfar uma onda de 30 metros, um valor que ainda procura ultrapassar.
Na altura que estas notícias surgiram acompanhadas pelas fotos das gigantescas ondas, o pensamento geral em relação ao protagonista da proeza deve ter sido, “esta juventude é maluca”. O senhor tem 46 anos.
Não sou surfista, aliás mal sei nadar, mas não me passa despercebida a coragem e tenacidade deste homem, que se propõe tentar vencer as forças da natureza e os limites do próprio ser humano. Quando o conheci na Sexta-feira, disse-lhe que era muito corajoso e que o admirava por isso, ao que ele me respondeu que cada pessoa tem o seu desafio, e este era o dele.
McNamara tornou-se um ídolo, não só para quem é fã da modalidade, mas julgo que para os adultos com mais de 40 anos, pois demonstra que a idade é apenas um número, e mesmo para os jovens, como exemplo de entrega e compromisso para com um objetivo. O que ele faz não tem nada de imprudente. Ele prepara-se com antecedência, estuda as cartas das marés, faz ensaios, treina o corpo.
Para além disso, o Garett é uma pessoa acessível, adorado pelos habitantes da Nazaré, e que soube retribuir a forma como foi acolhido, sendo já apelidado de “o presidente da Junta de Freguesia”.
Fico a torcer para que consiga apanhar “the big one”.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Vitamina D
Diz o povo “Janeiro fora, cresce uma
hora”. Fico tão contente perante a expectativa de podermos gozar de
luz natural durante mais horas do dia.
Adoro o Sol (sou algarvia). Estes
dias em que o radiante astro resolveu brindar-nos com a sua presença,
levantaram-me o ânimo. Soube-me bem passear junto ao rio no Parque
das Nações. Abasteci-me de vitamina D, a vitamina do bom humor.
Uma das características mais belas de
Lisboa é a sua luz natural. Quando os raios solares incidem sobre as
fachadas dos prédios, intensificam as suas cores, como o amarelo do
Martinho da Arcada, que contrasta com o branco polido do arco da Rua
Augusta, e, na linha do horizonte, com o azul do Tejo, salpicado de
cristais.
Há que reconhecer o bom gosto dos
pombos que não abandonam a baixa de Lisboa. Percorrem nos seus voos
o traçado pombalino (i.e. idealizado pelo Marquês e não columbófilo),
perscrutam com proximidade as estátuas de Reis e
outras figuras ilustres, e imergem na formosura das fontes.
Não resisto a fotografar a cidade,
mesmo repetindo os sítios e vistas. Não domino a arte e temo nunca vir a
fazer jus à beleza de Lisboa, mas arrisco dizer que é impossível
tirar-lhe uma má fotografia, por mérito da modelo.
Agora a população autóctone passa
mais o seu tempo livre nos centros comerciais, mas quando o Sol se
instala, a cidade ganha outro ânimo, que dá gosto ver, ouvir e fazer
parte.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
A frescura nossa de cada dia. Por Juliana Doretto
Moro num prédio típico de Lisboa: bastante antigo, com estilo que no Brasil chamamos de colonial (janelas retangulares, com bordas pintadas de uma cor contrastante e sacadinhas), sem elevador e com muitos moradores velhos (ou “velhotes”, como se diz, carinhosamente, em terras lusas). Meu apartamento, o menor de todos, fica parcialmente no subsolo, logo ao lado da porta principal: é o que eles chamam de “cave”. Pelas paredes, ouço o movimento dos vizinhos: o grande cachorro que desce a escada descontroladamente; as vizinhas que papeiam no andar de cima; o senhor de chapéu que sai para fazer compras no mercado todas as manhãs... Mas, de todos esses companheiros, a de que mais gosto é dona Esmeralda – e suas deliciosas frescuras.
Todos os dias, de segunda a sexta, para em frente à minha janela uma “van” da Santa Casa de Misericórdia, cheia de velhotes. Sai de lá uma mulher de 40 e muitos anos. Assistente social, provavelmente. E toca a campainha. Muitos minutos depois, escuto passos: vagarosos, sofridos. A respiração completamente ofegante (imagine alguém tendo uma crise de asma...). As mãos apoiando-se no corrimão com muita força. E, sempre que os passos silenciam, a suposta assistente social diz algo como:
- E a minha princesa, como está?
E então vêm as respostas que me alegram todas as manhãs. Apesar de descer as escadas toda arrumadinha, enfrentando suas visíveis dificuldades de locomoção, dona Esmeralda nunca quer embarcar na van. Os problemas se multiplicam. Há um novo, a cada dia:
- Doem-me as costas e os joelhos... Não tinha vontade nem de me levantar...
- Dói-me a coluna. Mal consigo andar...
- Não dormi nada essa noite...
- Há oito dias não vou à casa de banho [banheiro]. Hoje não quero almoçar...
- Há dez dias não vou à casa de banho. (!) Quero ir ao hospital...
- Dói-me a coluna. Mal consigo andar...
- Não dormi nada essa noite...
- Há oito dias não vou à casa de banho [banheiro]. Hoje não quero almoçar...
- Há dez dias não vou à casa de banho. (!) Quero ir ao hospital...
E a mulher que a aguarda, com maestria, sempre responde às reclamações de dona Esmeralda:
- Dói a nós todos. Se não andar é pior!
- Se ficar em casa dói ainda mais...
- Depois do almoço a senhora dorme um pouco...
- Mas hoje é bacalhau com natas! É muito bom!
- Já tomou as gotas? Tem de tomar à noite, para a senhora fazer de manhã...
- Se ficar em casa dói ainda mais...
- Depois do almoço a senhora dorme um pouco...
- Mas hoje é bacalhau com natas! É muito bom!
- Já tomou as gotas? Tem de tomar à noite, para a senhora fazer de manhã...
Imagino que dona Esmeralda viva sozinha e, com os demais “velhotes” da van, passe o dia num centro social – o carro volta impreterivelmente às 16h30, deixando-a à porta do prédio.
Um dia, nervosa com um trabalho que não chegava ao fim, irritei-me com as reclamações, e desabafei online: “Dona Esmeralda: para de frescura e entra logo nessa perua da Santa Casa! A senhora vai todo dia mesmo!”. Ao que uma amiga respondeu: “Mas a frescura é o melhor do dia, é o élan da vida”...
Um dia, nervosa com um trabalho que não chegava ao fim, irritei-me com as reclamações, e desabafei online: “Dona Esmeralda: para de frescura e entra logo nessa perua da Santa Casa! A senhora vai todo dia mesmo!”. Ao que uma amiga respondeu: “Mas a frescura é o melhor do dia, é o élan da vida”...
Dona Esmeralda precisa de seus cinco minutos de frescura diária, e da atenção da assistente social. Todos nós precisamos. Velhotes, temos as dores e outros desconfortos físicos. Crianças, temos o choro, e atenção imediata da mãe. Adolescentes, temos nossas crises existenciais cotidianas e a cumplicidade dos amigos da mesma idade. Adultos, temos às vezes dores, às vezes choro, às vezes crises existenciais... Todos precisamos nos sentir queridos. Todos precisamos saber que os outros se importam conosco. Pode falar da dor nas costas, dona Esmeralda. Se um dia eu tomar coragem e for falar com a senhora, lhe conto sobre as minhas outras tantas dores.
Texto originalmente publicado em http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ruth-de-aquino/noticia/2014/01/bfrescura-nossab-de-cada-dia-por-juliana-doretto.html
sábado, 25 de janeiro de 2014
The curious case of Marisa Serrenho
É sobejamente conhecido o axioma de
que a idade é uma questão de estado de espírito. No meu caso,
quanto mais os anos passam, mais nova eu fico. Um fenómeno
semelhante ao do filme “The curious case of Benjamin Button”, no
qual a personagem interpretada por Brad Pitt, vai ficando fisicamente
mais novo ao longo dos anos. Mas, calma, embora eu não aparente ter
os meus 31 anos, não estou a querer dizer que poderão aguardar
ver-me a ser passeada por Lisboa no carrinho de bebé da Laurinha. O
que sucede é que eu despertei tarde para a vida.
Por vicissitudes que um dia explicarei
na minha biografia, a ser escrita pelo José Rodrigues dos Santos (é
uma ideia!), vivi um quarto de século em abnegação. Fiz um voto
voluntário de obediência aos meus pais e entrei na reclusão da
vida dedicada à formação académica com a promessa (vã) de que me
levaria a uma carreira através da qual me pudesse sentir realizada
enquanto ser humano.
Um dia, houve um jovem que se
interessou por mim e eu comecei a pensar que poderia haver outro rumo
para a minha vida, mas quando o sonho de casamento estava em vias de
se tornar realidade, assustei-me e vim para Lisboa. Apercebi-me de
que ainda não tinha vivido e que não queria trocar uma forma de
reclusão, pela outra, e a obediência aos meus pais, pela dedicação
a um marido.
Os meus pais nunca me proibiram de sair
à noite com os meus colegas de escola, mas eu sabia que não iriam
dormir enquanto eu não chegasse a casa e isso pesava-me na
consciência. O mesmo se passava quando eu comecei a trabalhar por
turnos. Não sei se por ser a mais nova, mas o meu bem-estar sempre
foi motivo de ansiedade para os meus pais, algo que me deixa
enternecida (e vaidosa, confesso), porém ao mesmo tempo, incómoda.
Em Lisboa tenho seguido a formação
académica (da qual não consigo desistir, apesar do esforço e das
desilusões), mas o principal objetivo da minha vinda foi angariar
experiências e recordações. Sempre me divertia quando vinha
visitar a minha irmã e o meu cunhado, depois fiz novos amigos na
Universidade e recuperei velhas amizades, com as quais o destino me
fez novamente cruzar caminho. Comecei com noitadas com a minha irmã,
depois jantaradas com os colegas, cinema, teatro e discotecas com as amigas e, no ano
passado, fui ao meu primeiro grande concerto (Bruno Mars). Este ano
já comprei o bilhete para o Rock in Rio Lisboa, quero ver se consigo alguém
que me leve a andar de mota e quero ir à Serra da Estrela ver neve.
Ontem foi o jantar de turma da Restart.
A maioria dos meus colegas tem vinte e poucos anos, mas têm mais
experiência de vida (e maturidade, confesso) do que eu. Junto dos
meus colegas sinto-me mais jovem e isso transparece igualmente no
exterior, até porque mudei o meu visual: cortei o cabelo e uso roupas
mais descontraídas e despretensiosas. Ninguém me assinala no grupo
como sendo a mais velha. Eles são super divertidos e eu aprendo
muito com eles. Só me lembrei que tinha 31 anos, quando chegou a
hora de irmos para casa e eu senti-me na obrigação de garantir que
tinham boleia.
Eventualmente, quero reencontrar-me com
a minha geração e traçar o caminho que conduza aos três grandes “C”s:
Carreira, Casa e Casamento. Até lá, ainda gostaria de primeiro
aprender a andar de bicicleta.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Farinha do mesmo saco?
Ter uma conversa através de texto com alguém é sempre
complicado porque nos falta dar a entoação certa. É muito fácil
sermos mal interpretados. Certo dia “teclava” com um amigo e
fiz-lhe um comentário que deveria ser interpretado como humorístico,
mas foi tomado como uma crítica. É certo que já não o via há
muitos anos antes de retomarmos o contacto e que o meu sentido de
humor apurou-se desde a infância, mas a maneira como se defendeu no
assunto em questão, leva-me a acrescentar outro factor à falha de
comunicação: o género.
Se tivesse sido um amigo homem a fazer o comentário, talvez fosse interpretado como piada, mas sendo uma mulher, só poderia ser uma de duas coisas: uma crítica ou uma cobrança. Nem todas as mulheres são iguais. Para além de loiras, ruivas ou morenas, também nos diferenciamos no feitio. Há as que são mais tranquilas, agressivas ou indiferentes. Não somos todas farinha do mesmo saco.
Quem me conhece sabe que sou uma pessoa calma que detesta conflitos e prefere ficar calada a dizer uma parvoíce. Fico um pouco magoada em ser o alvo de generalizações com base em más experiências vividas ou transmitidas de amigo para amigo, ou estereótipos popularizados pelos media.
Sempre me pautei pela máxima “não faças aos outros aquilo que não gostarias que fizessem a ti”. Se quero paz e bom astral para mim, não vou procurar discussões e provocar a perturbação de outros.
Também já tive os meus dissabores e desilusões, mas o que aprendi sobre o ser humano, e recorrendo a outra metáfora também popular, é que as pessoas são como as cebolas: têm várias camadas, e, assim como as cebolas, muitas fazem-nos chorar, mas nem todas ...
Se tivesse sido um amigo homem a fazer o comentário, talvez fosse interpretado como piada, mas sendo uma mulher, só poderia ser uma de duas coisas: uma crítica ou uma cobrança. Nem todas as mulheres são iguais. Para além de loiras, ruivas ou morenas, também nos diferenciamos no feitio. Há as que são mais tranquilas, agressivas ou indiferentes. Não somos todas farinha do mesmo saco.
Quem me conhece sabe que sou uma pessoa calma que detesta conflitos e prefere ficar calada a dizer uma parvoíce. Fico um pouco magoada em ser o alvo de generalizações com base em más experiências vividas ou transmitidas de amigo para amigo, ou estereótipos popularizados pelos media.
Sempre me pautei pela máxima “não faças aos outros aquilo que não gostarias que fizessem a ti”. Se quero paz e bom astral para mim, não vou procurar discussões e provocar a perturbação de outros.
Também já tive os meus dissabores e desilusões, mas o que aprendi sobre o ser humano, e recorrendo a outra metáfora também popular, é que as pessoas são como as cebolas: têm várias camadas, e, assim como as cebolas, muitas fazem-nos chorar, mas nem todas ...
sábado, 18 de janeiro de 2014
Charme inato
É um facto que as crianças têm o poder de nos derreter o coração, ou não fossem, juntamente com os gatinhos, o tema de muitos posts e vídeos comoventes nas redes sociais, porém há uma criança em particular que me reduz a água, qual boneco de neve no deserto do Saara: a minha sobrinha Laura.
Não sou a mesma pessoa desde que me tornei tia. À primeira visão daquelas bochechas, apaixonei-me por ela, e a vida ganhou outra cor. É um privilégio acompanhar o seu crescimento e ver a sua personalidade desabrochar. Já dá para ver que vai ter o feitio da mãe, até porque nasceram sobre o mesmo signo do zodíaco (caranguejo), mas espero que os genes do pai sirvam de contrabalanço. Tem uns olhos muito expressivos e um sorriso que desarma a pessoa mais rabugenta.
Recordo a primeira vez em que me chamou tia. Senti que a minha vida ganhava outro significado e que eu teria outra função a acrescentar no meu currículo: tia da Laura. Quero ser um bom exemplo para a minha sobrinha.
Tento ajudar na educação da Laura como posso e sei, sendo disciplinadora quando é preciso, brincando com ela nas horas certas, mas às vezes não resisto ao seu charme e cometo uma infração. Como é comum nas crianças da sua idade, adora mexer onde não deve. Já sei que quando estou na cozinha e deixo de ouvir barulho na sala, ela está a fazer alguma asneira. Dirijo-me à sala e encontro-a a brincar com o comando da TV. “Laura, isso é do papá e da mamã”. Ela olha para mim, primeiro com uma expressão “ups, fui apanhada” e depois sorri “perdoa-me que eu sou fofinha”. Tiro-lhe o comando das mãos, mas não resisto a dar-lhe um abraço e um beijo repenicado. Noutra ocasião, estamos a assistir TV e ela vai até à estante e começa a tirar os livros e DVDs e a colocá-los no chão. “Laura, não mexas aí.” Ela parece acatar e volta para os seus brinquedos, mas no instante a seguir, dou com ela a olhar para a mãe e a estender a mão para os DVDs. “Será que consigo tirar um sem a mamã perceber?”, parece estar a pensar. Eu repreendo-a, mas a suster o riso. Ela faz um sorriso maroto e vem abraçar-me, eu derreto.
As crianças dominam a inteligência emocional e a Laurinha faz de mim gato-sapato. Os pais e eu podemos estar a jantar ou ver um filme, e ela querer brincar no carrinho ou ver fotos dela mesma no PC, que já sabe a quem pode sempre recorrer. Chega-se ao pé de mim, estende-me a mão e diz “Anda!”, e lá vou eu, guiada por ela, e empurro o carrinho e mostro-lhe as fotos no PC, e vou buscar a bola ou apanhar o balão, e ando com ela às cavalitas e … Ufa! É uma azáfama, mas adoro cada momento que partilho com ela.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
A osga
Estou a comemorar um aniversário muito especial. Faz um ano que
moro sozinha.
Sai tarde de casa dos meus pais. Tinha 28 anos quando vim morar com a minha irmã e querido cunhado (fica sempre bem dar-lhe uma graxinha!) em Lisboa. Morar mesmo sem partilhar casa de banho, só veio a acontecer aos 30 anos. As circunstâncias não foram as melhores e tive de escolher a primeira casa que me apareceu na área que eu pretendia, contando com a ajuda da minha irmã e da sua sogra para o recheio (qual IKEA, qual quê!).
Um ano depois, encontro-me noutra casa, com mais um quarto e menos de renda, sempre próxima da minha Laurinha, que me surpreende e prende mais a cada dia, e bastante confortável na minha solidão (no sentido de morar sozinha), até ao dia em que ela apareceu … A osga!
Estava eu, num fim-de-semana destes, toda contente a arrumar a minha casinha, quando dou de caras com uma osga na cozinha. Gritei e fugi para a sala. Com o coração aos pulos, avancei novamente para a cozinha, e da porta espreitei, lá estava ela, gorda, parada, altiva. Corri novamente para a sala e telefonei para a minha irmã. O meu cunhado estava a dormir e eu tinha era de arranjar coragem para matar o bicho que “não faz mal a ninguém” (a não ser provocando um ataque cardíaco!). Fui novamente espreitar, e desta vez ela mexeu-se. Eu gritei novamente. Decidi que tinha de a matar antes que ela se escondesse nalgum sítio e depois seria o caos para descobri-la. Peguei numa colher de pau e avancei sobre ela. Aos gritos, desferi sobre a criatura uma série de golpes, e só parei quando tive a certeza de que não se mexia.
Duas coisas me espantaram nesta situação. A primeira, o raio de vizinhos que eu tenho, que ao me ouvirem gritar, não me vieram acudir. A segunda, a minha coragem. Mas não fui capaz de encerrar o caso sozinha. Decidi aguardar até o meu cunhado acordar para ele vir remover o corpo. Tentei, mas não fui capaz. Refugiei-me no quarto e liguei novamente à minha irmã. De vez em quando ia certificar-me de que a osga permanecia morta.
Algum tempo depois, chegou o meu cunhado. Apontei-lhe o corpo e ele concordou comigo de que era grande, embora na minha percepção, fosse sempre maior, um mini-crocodilo. Depois o meu cunhado comentou que eu não matei simplesmente a osga, mas que a desventrei, que quase parecia o cenário de um filme de terror. De facto, a minha raiva para com aquela osga era muita, pois foi perturbar a paz e conforto que eu tinha adquirido no apartamento que eu já considerava o meu lar.
Quando contei a história para a Juliana, ela respondeu-me que faz parte da experiência de se morar sozinho, e parecia estar a parabenizar-me por ter passado por um ritual de iniciação: agora sim, sou uma mulher independente, matadora de osgas. Visto por esse prisma, foi uma experiência positiva, mas pela qual não quero passar novamente.
Dias depois, contei a história num jantar de amigos e um amigo contou-me como a mulher o chamou a casa para matar uma osga que estava na varanda. Veio-me outra ideia à cabeça. Foi para isto que Deus criou o homem, e o casamento. Por mais independente que eu queira ser, lamento mas não consigo mudar pneus, montar móveis do IKEA ou matar osgas. Mas enquanto não tenho o meu próprio cavaleiro matador de dragões, vou-me safando com o meu cunhadinho, a quem agradeço ter vindo ao meu auxílio, apesar das posteriores piadinhas. E sinceramente, já estou a habituar-me a morar sozinha, a não ter que esperar para usar a casa de banho, não ter horas para tomar refeições ou para chegar em casa, ou não ter de lutar pelo comando da TV. Vou ter é de comprar outra colher de pau ...
Sai tarde de casa dos meus pais. Tinha 28 anos quando vim morar com a minha irmã e querido cunhado (fica sempre bem dar-lhe uma graxinha!) em Lisboa. Morar mesmo sem partilhar casa de banho, só veio a acontecer aos 30 anos. As circunstâncias não foram as melhores e tive de escolher a primeira casa que me apareceu na área que eu pretendia, contando com a ajuda da minha irmã e da sua sogra para o recheio (qual IKEA, qual quê!).
Um ano depois, encontro-me noutra casa, com mais um quarto e menos de renda, sempre próxima da minha Laurinha, que me surpreende e prende mais a cada dia, e bastante confortável na minha solidão (no sentido de morar sozinha), até ao dia em que ela apareceu … A osga!
Estava eu, num fim-de-semana destes, toda contente a arrumar a minha casinha, quando dou de caras com uma osga na cozinha. Gritei e fugi para a sala. Com o coração aos pulos, avancei novamente para a cozinha, e da porta espreitei, lá estava ela, gorda, parada, altiva. Corri novamente para a sala e telefonei para a minha irmã. O meu cunhado estava a dormir e eu tinha era de arranjar coragem para matar o bicho que “não faz mal a ninguém” (a não ser provocando um ataque cardíaco!). Fui novamente espreitar, e desta vez ela mexeu-se. Eu gritei novamente. Decidi que tinha de a matar antes que ela se escondesse nalgum sítio e depois seria o caos para descobri-la. Peguei numa colher de pau e avancei sobre ela. Aos gritos, desferi sobre a criatura uma série de golpes, e só parei quando tive a certeza de que não se mexia.
Duas coisas me espantaram nesta situação. A primeira, o raio de vizinhos que eu tenho, que ao me ouvirem gritar, não me vieram acudir. A segunda, a minha coragem. Mas não fui capaz de encerrar o caso sozinha. Decidi aguardar até o meu cunhado acordar para ele vir remover o corpo. Tentei, mas não fui capaz. Refugiei-me no quarto e liguei novamente à minha irmã. De vez em quando ia certificar-me de que a osga permanecia morta.
Algum tempo depois, chegou o meu cunhado. Apontei-lhe o corpo e ele concordou comigo de que era grande, embora na minha percepção, fosse sempre maior, um mini-crocodilo. Depois o meu cunhado comentou que eu não matei simplesmente a osga, mas que a desventrei, que quase parecia o cenário de um filme de terror. De facto, a minha raiva para com aquela osga era muita, pois foi perturbar a paz e conforto que eu tinha adquirido no apartamento que eu já considerava o meu lar.
Quando contei a história para a Juliana, ela respondeu-me que faz parte da experiência de se morar sozinho, e parecia estar a parabenizar-me por ter passado por um ritual de iniciação: agora sim, sou uma mulher independente, matadora de osgas. Visto por esse prisma, foi uma experiência positiva, mas pela qual não quero passar novamente.
Dias depois, contei a história num jantar de amigos e um amigo contou-me como a mulher o chamou a casa para matar uma osga que estava na varanda. Veio-me outra ideia à cabeça. Foi para isto que Deus criou o homem, e o casamento. Por mais independente que eu queira ser, lamento mas não consigo mudar pneus, montar móveis do IKEA ou matar osgas. Mas enquanto não tenho o meu próprio cavaleiro matador de dragões, vou-me safando com o meu cunhadinho, a quem agradeço ter vindo ao meu auxílio, apesar das posteriores piadinhas. E sinceramente, já estou a habituar-me a morar sozinha, a não ter que esperar para usar a casa de banho, não ter horas para tomar refeições ou para chegar em casa, ou não ter de lutar pelo comando da TV. Vou ter é de comprar outra colher de pau ...
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