segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A osga

Estou a comemorar um aniversário muito especial. Faz um ano que moro sozinha.
Sai tarde de casa dos meus pais. Tinha 28 anos quando vim morar com a minha irmã e querido cunhado (fica sempre bem dar-lhe uma graxinha!) em Lisboa. Morar mesmo sem partilhar casa de banho, só veio a acontecer aos 30 anos. As circunstâncias não foram as melhores e tive de escolher a primeira casa que me apareceu na área que eu pretendia, contando com a ajuda da minha irmã e da sua sogra para o recheio (qual IKEA, qual quê!).
Um ano depois, encontro-me noutra casa, com mais um quarto e menos de renda, sempre próxima da minha Laurinha, que me surpreende e prende mais a cada dia, e bastante confortável na minha solidão (no sentido de morar sozinha), até ao dia em que ela apareceu … A osga!
Estava eu, num fim-de-semana destes, toda contente a arrumar a minha casinha, quando dou de caras com uma osga na cozinha. Gritei e fugi para a sala. Com o coração aos pulos, avancei novamente para a cozinha, e da porta espreitei, lá estava ela, gorda, parada, altiva. Corri novamente para a sala e telefonei para a minha irmã. O meu cunhado estava a dormir e eu tinha era de arranjar coragem para matar o bicho que “não faz mal a ninguém” (a não ser provocando um ataque cardíaco!). Fui novamente espreitar, e desta vez ela mexeu-se. Eu gritei novamente. Decidi que tinha de a matar antes que ela se escondesse nalgum sítio e depois seria o caos para descobri-la. Peguei numa colher de pau e avancei sobre ela. Aos gritos, desferi sobre a criatura uma série de golpes, e só parei quando tive a certeza de que não se mexia.
Duas coisas me espantaram nesta situação. A primeira, o raio de vizinhos que eu tenho, que ao me ouvirem gritar, não me vieram acudir. A segunda, a minha coragem. Mas não fui capaz de encerrar o caso sozinha. Decidi aguardar até o meu cunhado acordar para ele vir remover o corpo. Tentei, mas não fui capaz. Refugiei-me no quarto e liguei novamente à minha irmã. De vez em quando ia certificar-me de que a osga permanecia morta.
Algum tempo depois, chegou o meu cunhado. Apontei-lhe o corpo e ele concordou comigo de que era grande, embora na minha percepção, fosse sempre maior, um mini-crocodilo. Depois o meu cunhado comentou que eu não matei simplesmente a osga, mas que a desventrei, que quase parecia o cenário de um filme de terror. De facto, a minha raiva para com aquela osga era muita, pois foi perturbar a paz e conforto que eu tinha adquirido no apartamento que eu já considerava o meu lar.
Quando contei a história para a Juliana, ela respondeu-me que faz parte da experiência de se morar sozinho, e parecia estar a parabenizar-me por ter passado por um ritual de iniciação: agora sim, sou uma mulher independente, matadora de osgas. Visto por esse prisma, foi uma experiência positiva, mas pela qual não quero passar novamente.

Dias depois, contei a história num jantar de amigos e um amigo contou-me como a mulher o chamou a casa para matar uma osga que estava na varanda. Veio-me outra ideia à cabeça. Foi para isto que Deus criou o homem, e o casamento. Por mais independente que eu queira ser, lamento mas não consigo mudar pneus, montar móveis do IKEA ou matar osgas. Mas enquanto não tenho o meu próprio cavaleiro matador de dragões, vou-me safando com o meu cunhadinho, a quem agradeço ter vindo ao meu auxílio, apesar das posteriores piadinhas. E sinceramente, já estou a habituar-me a morar sozinha, a não ter que esperar para usar a casa de banho, não ter horas para tomar refeições ou para chegar em casa, ou não ter de lutar pelo comando da TV. Vou ter é de comprar outra colher de pau ...

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